Epidemia de amor pelas crianças

Considero muito bom este artigo do psicanalista Contardo Calligaris publicado na Folha de São Paulo.

Ele fala do exagero dos pais em relação aos filhos, aplaudindo e elogiando qualquer coisa que façam. Não há parâmetro. É o elogio insincero que longe de fortalecer  a auto estima deles  fornece uma visão equivocada  de que são “o máximo”,superestimando até o que é desprovido de valor. Ficam viciados no aplauso fácil e terminam por acreditar, equivocadamente , que na vida  real receberão o mesmo tratamento, ignorando que para ganhar o reconhecimento há que merecê-lo o que exige talento,esforço e perseverança

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09/08/2012 – 03h00                                               (nejmiaziz.com.br)

Epidemia de amor pelas crianças

1) É habitual que, na infância e na adolescência, um jovem sonhe com vitórias e aplausos, sem pensar nos esforços necessários para merecê-los.

Nestes dias, deparo-me com crianças ninadas por devaneios de glória olímpica. Sem querer, corto seu barato, explicando o que é indispensável fazer para que esses sonhos se transformem numa chance real de chegar lá.

As crianças respondem que elas não têm a intenção de realizar o tal sonho: apenas querem o prazer de devanear em paz. Até aqui, tudo bem, mas os pais me acusam de estragar, além dos sonhos, o futuro dos filhos, os quais, segundo eles, para triunfar na vida, precisariam confiar cegamente em seus dotes.

O problema é que os elogios incondicionais dos pais e dos adultos não produzem “autoconfiança”, mas dependência: os filhos se tornam cronicamente dependentes da aprovação dos pais e, mais tarde, dos outros. “Treinados” dessa forma, eles passam a vida se esforçando, não para alcançar o que desejam, mas para ganhar um aplauso.

Claro, muitos pais gostam que assim seja, pois adoram se sentir indispensáveis (no cinema, uma mãe enfia a cara embaixo de seu próprio assento para atender o telefone que vibrou no meio do filme e sussurrar um importantíssimo: sim, pode tomar refrigerante).

2) Meu irmão, aos dez anos, quis que todos escutássemos uma música que ele acabava de “compor”. Movimentando ao acaso os dedos sobre o teclado (não tínhamos a menor educação musical), ele cantou uma letra que começava assim: sou bonito e eu o sei. Minha mãe escutou, constrangida, e, no fim, declarou que a letra era uma besteira, e a música, inexistente. Mas, se meu irmão quisesse, ele poderia estudar piano –à condição que se engajasse a se exercitar uma hora por dia. Meu irmão (desafinado como eu) desistiu disso e se tornou um médico excelente.

3) Os pais dos meus pais davam, no máximo, um beijo na testa de seus filhos. Já meus pais nos beijavam e abraçavam. Mesmo assim, não éramos o centro da vida deles, enquanto nossos filhos são facilmente o centro da nossa.

Para a geração de meus avós e de meus pais, a vida dos adultos não devia ser decidida em função do interesse das crianças, até porque o principal interesse das crianças era sua transformação em adulto (criança tem um defeito, foi-me dito uma vez por um tio: o de ser ainda só uma criança).

Lá pelos meus oito anos, eu tinha passado o domingo com meus pais, visitando parentes. A noite chegou, e eu não tinha nem começado meu dever de casa. Pedi uma nota assinada que me desculpasse. Meu pai disse: esta criança está com sono e deve trabalhar, façam um café para ele. Detestei, mas também gostei de aprender que, mesmo na infância, há coisas mais importantes do que sono e bem-estar.

4) Na pré-estreia do último “Batman”, em Aurora, Colorado, um atirador feriu 58 pessoas e matou 12. Um comentador da TV norte-americana (não sei mais qual canal) disse, de uma menina assassinada, que ela era “uma vítima inocente”.

Se só a menina era inocente, quer dizer que os outros 11, por serem adultos, eram culpados e mereciam os tiros?

Tudo bem, estou sendo de má-fé: o comentador queria nos enternecer e supunha, com razão, que, para a gente, perder um adulto fosse menos grave do que perder uma criança, que tem sua vida pela frente e, como se diz, ainda é “um anjo”. No entanto, eu não acredito em anjos e ainda menos acredito que crianças sejam anjos. Também não sei o que é mais grave perder: a esperança de um futuro ou o patrimônio das experiências acumuladas de uma vida? Você trocaria seus bens atuais por um bilhete da Mega-Sena de sábado que vem?

5) Cuidado, não sonho com uma impossível volta ao passado. Essas notas servem para propor uma mudança preliminar na maneira de contabilizar as falhas que podem atrapalhar a vida de nossos rebentos. Explico.

A partir do fim do século 18, no Ocidente, as crianças adquiriram um valor novo e especial. Únicas continuadoras de nossas vidas, elas foram encarregadas de compensar nossos fracassos por seu sucesso e sua felicidade.

Desde essa época, em que as crianças começaram a ser amadas e cuidadas extraordinariamente, nós nos preocupamos com os efeitos nelas de uma eventual falta de amor. Agora, começo a pensar que nossa preocupação com os estragos produzidos pela falta de amor sirva, sobretudo, para evitar de encarar os estragos produzidos pelos excessos de nosso amor pelas crianças.

Contardo CalligarisContardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias).
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O Poder do Dinheiro

Roberto Gurgel

(exame.abril.com.br)

Venho acompanhando, com bastante atenção, o julgamento do Mensalão. A peça acusatória do procurador -geral da República, Roberto Gurgel, é detalhada, bem feita e demonstra  o  maior esquema de corrupção  e desvio de dinheiro público na história brasileira. Pediu a condenação de 36 dos 38 envolvidos.

O artigo da escritora Rosiska Darcy de Oliveira (foto abaixo),publicado no jornal O Globo e reproduzido aqui, demonstra a importância de estarmos atentos a todo o processo  para que a impunidade não  prospere.

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O poder do dinheiro

Michael J. Sandel, cujos cursos em Harvard atraem multidões e está longe de ser um inimigo do livre mercado, propõe em seu livro “O que o dinheiro não compra” um debate essencial sobre os espaços que o dinheiro não deve invadir.

Relata, entre irônico e amargo, que nos Estados Unidos, onde o mercado é rei, o upgrade em uma cela carcerária sai por módicos 82 dólares por noite. Sem aflições éticas, médicos, por sua vez, praticam uma ‘medicina de boutique’. Trocando em miúdos, por uma taxa que varia entre 1.500 e 25.000 dólares anuais os pacientes adquirem uma assinatura pela qual têm acesso ao celular de seu médico e garantia de atendimento prioritário. Quem não pode pagar vai para o fim da fila ou procura outro médico. O juramento de Hipócrates já era.

Quem precisa de dinheiro tem a opção de vender um rim ou servir, nos laboratórios farmacêuticos, de cobaia humana para novos medicamentos pela tarifa de 7.500 dólares. Se tudo isso se faz às claras é que a sociedade americana absorveu o princípio de que tudo está à venda e tem seu preço.

Sandel dá ao seu livro o subtítulo “os limites morais do mercado”. Reflexão oportuna entre nós, no momento em que o Supremo Tribunal Federal começa a julgar os 38 réus acusados pelo Procurador Geral da República de comprar e vender votos no Congresso Nacional. Oportuna porque o mensalão é o melhor exemplo de invasão e perversão pela lógica da compra e venda de um espaço que lhe deveria ser impermeável.

O tribunal vai julgar se a acusação procede e, em que medida, para cada um dos réus. Se, julgada procedente, ainda assim houvesse complacência na punição, uma impunidade disfarçada, o ricochete na sociedade brasileira seria devastador. Em vertiginosa espiral descendente correria um rastilho de corrupção, absorvida na cultura, transformando cada lugar de poder em um próspero balcão de negócios.

Sendo possível comprar, impunemente, o voto de alguns parlamentares por que todos – salvo por questões de consciência individual – cedo ou tarde não  venderiam os seus? O voto, transformado em produto, seria cotado segundo as vantagens em jogo, sujeito a uma avaliação em dinheiro. A lucratividade da carreira política atrairia a elite dos velhacos. O Congresso ganharia a animação de uma feira livre em que as leis seriam vendidas a peso de ouro, talhadas na medida dos interesses de quem as comprou. Difícil imaginar ultraje maior à democracia.

A exemplo do Legislativo, transformado em feira, por que um juiz não venderia uma sentença? Por que um guarda de trânsito não rasgaria a multa em troca de uma propina? Ou o policial de uma UPP não receberia dinheiro e deixaria os traficantes trabalharem em paz? O que impediria, no Executivo, qualquer funcionário federal, estadual ou municipal de fraudar uma licitação, facilitar a solução de um problema ou conceder qualquer outra benesse que a inventividade brasileira não teria dificuldade de imaginar?

Se o dinheiro pudesse comprar o que não deveria jamais estar à venda ganharia tal centralidade na vida da sociedade que ninguém se conformaria de não tê-lo e o buscaria a qualquer preço. Nessa corrida do ouro, a sociedade se tornaria cada vez mais violenta e inescrupulosa. Impunidade, corrupção e violência se retroalimentariam. Abominável mundo novo em que um socorro urgente que alivie a dor, o voto de um deputado, a sentença de um juiz, tudo se equivaleria na condição de produto oferecido a quem der mais.

A compra do voto de um parlamentar para neutralizar a oposição e eternizar um partido no poder é a quintessência do desprezo pela democracia que, por definição, viceja no campo argumentativo dos conflitos de interesses e idéias.  Absolvê-la é dar o sinal verde para a generalização da lógica do tudo se compra, tudo se vende, deriva que nos levaria, imperceptivelmente, a deslizar de uma economia de mercado a uma sociedade de mercado.

Na sociedade de mercado, quem insiste em definir, como um imperativo ético, que espaços ou relações devem ser infensos ao poder do dinheiro entra no rol dos ingênuos e retrógados que não entenderam como funciona o mundo contemporâneo. Normas éticas e gestos de solidariedade, que dão sentido e coesão à convivência entre pessoas, se transformam em peças de um museu que ninguém mais visita. Cabe ao dinheiro e somente a ele dar forma ao presente e ao futuro.

Resquícios de esperança e a vontade de dar uma chance ao futuro me levaram a falar deste risco no condicional. A sentença do STF dirá se é tempo de passar ao presente do indicativo.

 

                                                                       Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

                                                                       

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Crime da Tristeza

Márcia e o filho

(portalgranderede.com)

A próxima vítima

*Lícia Peres

A sociedade  gaúcha está chocada com o crime  da Tristeza,em Porto Alegre, onde uma família, aparentemente feliz e  com boa situação financeira, foi destroçada.  A desconfiança  de que o bioquímico Ênio Carnetti  seja o autor do  duplo homicídio- o de sua mulher Márcia  e do único filho  do casal, Matheus, de cinco anos-  causa perplexidade.  Após o  brutal crime ,Ênio tentou suicídio  atirando-se da ponte do Guaíba, onde foi resgatado por pescadores.

O elemento perturbador em casos como este  é  a ocorrência de  uma identificação das pessoas  com este tipo de núcleo familiar, com todos os indicadores exteriores de  que   seria  “normal”, ou seja, uma família como qualquer outra de classe média.

Ao acompanhar o caso, eu procurava um elemento presente em todos os casos de violência doméstica :  a pista dada pelo agressor  de que algo mais grave poderia  ocorrer.  No referido caso foram as ameaças ouvidas pela empregada da casa e relatada pela própria vítima aos colegas de trabalho. Pelo visto, não foram levadas a sério.

É necessário alertar para aquilo que nós, do movimento de mulheres, vimos fazendo  há muito tempo:  a ameaça é um indicador  importante , assim como agressões verbais e outros tipos de violência. Dificilmente o homicídio  é o primeiro e último gesto.  Em razão disso, quando ameaçada , a mulher tem que  acreditar  que algo mais sério pode ocorrer  e denunciar.  Essa atitude pode prevenir o pior. A inação, muitas vezes, leva à morte.

No que respeita à violência de gênero, sabemos que  ela ocorre em  todas as classes sociais.

Uma  das melhores campanhas feitas  pelo  Conselho Nacional dos Direitos da Mulher continha fotos de homens bem vestidos e de boa aparência em torno de uma mesa e a pergunta :  você desconfiaria de que ele é um agressor?  Pois, é. A campanha não usou fotos masculinas  esterotipadas  demonstrando hostilidade , ou  sinais de agressividade . Pelo contrário, mostrou que a violência pode não se expressar no convívio social, nem nas aparências.

Hoje a Lei Maria da Penha é bastante completa  ao abranger todas as formas de violência doméstica e familiar.  respaldando as mulheres através de medidas   protetivas  que incluem  a retirada do agressor do ambiente doméstico .

Ao ignorar  as ameaças, a mulher pode se tornar a próxima vítima.

*socióloga

Márcia  e o marido  dias antes do crime

(clicrbs.com.br)

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Neandertal

Todos nós sentimos curiosidade  sobre a evolução humana.

Eu mesma,com meu filho Lorenzo, já visitei diversos museus de História Natural, sempre deixando a imaginação voar sobre como seria sobreviver morando em cavernas, enfrentando animais ferozes , tentando dominar a natureza e proteger  a nossa espécie. Precisavam sair para buscar alimento.

Dizem que o horror que as mulheres sentem pelas espécies rastejantes  advém da época das cavernas quando , sozinhas com suas crias, no escuro, precisavam lidar com o problema. Seria,assim, a memória ancestral, ainda remanescente.

Mas, com o avanço da ciência,novas descobertas ocorrem.  A publicada  nessa matéria diz respeito à saúde dos neandertais.

(en.wikipedia.org)

Neandertal usava ervas medicinais para se tratar, diz novo levantamento.

Comunicação CSIC/Divulgação
Cientistas trabalham na caverna espanhola de El Sidrón, localizada no norte do país, que era habitada por neandertais
Cientistas trabalham na caverna espanhola de El Sidrón, localizada no norte do país, que era habitada por neandertais

RAFAEL GARCIA
EM WASHINGTON

A espécie de humanos distinta do Homo sapiens que habitou a Europa até 30 mil anos atrás -os neandertais- tinha uma cultura tão sofisticada que incluía até conhecimento sobre ervas medicinais. Cientistas analisaram a composição química do tártaro acumulado em dentes fossilizados de um indivíduo da espécie e encontraram traços de camomila, mil-folhas e outras plantas que não puderam ser identificadas.

“Acreditamos que ele estivesse consumindo essas folhas para automedicação, porque o gosto delas não é muito bom”, disse àFolha Karen Hardy, arqueóloga da Universidade de York que fez a descoberta. “As plantas que identificamos também têm valor nutricional muito baixo, e certamente eles não as comiam para obter energia.”

“A camomila, claro, é conhecida hoje como chá para acalmar os nervos”, diz Hardy. “Já o mil-folhas às vezes é receitado contra resfriado.”

Os fósseis de 50 mil anos vêm de um sítio arqueológico na caverna de El Sidrón, no norte da Espanha.

Para identificar os diferentes componentes de plantas que estavam aprisionados no tártaro dos hominídeos, os cientistas combinaram a espectrometria de massa (técnica para revelar a composição química de materiais) com a análise de imagens de microscópio eletrônico, que revelou grãos minúsculos de plantas fósseis trituradas.

O estudo analisou dez indivíduos e encontrou evidências de consumo de plantas com amido em todos. Três deles exibiam traços de carboidratos sugerindo que os vegetais haviam sido cozidos.

Um dos fósseis -o mesmo que consumira ervas medicinais -não apresentou traços químicos de consumo de carne. Uma surpresa para os cientistas, pois neandertais são considerados carnívoros.

“Precisamos de mais estudos antes de dizer se esse indivíduo pertencia a uma cultura vegetariana totalmente alternativa”, diz Hardy.

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Mulheres sem futuro

O último Censo do IBGE mostrou que 43 mil meninas menores de 14 anos vivem relacionamentos estáveis no Brasil. Como a prática é ilegal, a maioria vive em união consensual, sem registro.É o retrato de uma cultura atrasada que ainda sobrevive nos grotões de nosso país. Na maioria dos casos, fruto do esquecimento secular por parte dos governantes.Em comunidades mais pobres, e abandonadas, as próprias famílias são responsáveis pelos casamentos, uma vez que as uniões são vistas como fuga da pobreza. É a transformação em chaga social de um sonho de criança de casar-se vestida de noiva. Mas de que tipo de menina nós falamos?

Certamente não é da mesma menina urbana de um cortiço paulistano ou da de uma favela carioca. Essas têm sonhos possíveis, apesar de, na maioria, inalcançáveis. Falamos de outro mundo, em que, apesar da televisão, o que prevalece é a história e a realidade materna. Destino trágico.

Não muito diferente da sina de milhares de meninas pobres no mundo em desenvolvimento, no qual as mulheres são pressionadas, por motivos diversos, a casar-se e a ter filhos com pouca idade.

Nos países pobres, mais de 30% das jovens se casam antes de completar 18 anos. Muitas meninas enfrentam pressões para terem filhos o mais rapidamente possível, engravidam e morrem de hemorragia. Os maridos não são fiéis e elas, com maior vulnerabilidade por causa da idade, frequentemente também sucumbem a DSTs.

É uma realidade com nuances distintas. Na África ocidental, a fome empurra jovens para o casamento precoce. Pais casam suas filhas mais cedo em busca de dotes para ajudar as famílias a sobreviver.
O Níger tem o mais alto índice de casamento infantil no mundo, com uma em cada duas jovens se casando antes dos 15 anos -algumas delas com apenas sete anos.

No Brasil, a lei é clara ao classificar como estupro qualquer envolvimento carnal com menores de 14 anos. Além de ser crime, essas meninas também sofrem desvantagens em relação a saúde, educação, relacionamentos sociais e pessoais em comparação com aquelas que se casam mais tarde.

O que essas brasileirinhas vivem é inaceitável. Enquanto não conseguimos tirá-las da miséria -e essa é uma prioridade de nossa presidenta-, temos que protegê-las dessas relações perversas com ações policiais firmes e campanhas para a eliminação do casamento de crianças. Essas relações também impõem uma barreira às comunidades que procuram aumentar os níveis de escolaridade e buscam diminuir os índices de pobreza.

As noivas meninas têm seu futuro comprometido e seus direitos básicos de brincar e estudar violados. Se tornam meninas sem presente e mulheres sem futuro.

Folha de S.Paulo
21/07/2012 
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Poesia

                                                   O Beijo de Gustav Klimt
                                                     (ppsiquiatrio.blogspot.com)
                                                  Carlos Drummond de Andrade
                                                (Drummond-correiodo povo.al.com.br)
 A poesia enriquece a nossa vida :
Carlos Drummond de Andrade
Os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se vêem. Um se beija no outro, refletido. Dois amantes que são? Dois inimigos. Amantes são meninos estragados pelo mimo de amar: e não percebem quanto se pulverizam no enlaçar-se, e como o que era mundo volve a nada. Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma que os passeia de leve, assim a cobra se imprime na lembrança de seu trilho. E eles quedam mordidos para sempre. deixaram de existir, mas o existido continua a doer eternamente.
                                                        (foto:quartodesegredos.blogspot.com)
                                       (unmetroquadradodeaarteporfavor.blogspot.com)
Duas meninas

Tenho cá duas meninas muito bem diferenciadas
Uma é fina e delicada, outra é grossa abrutalhada
Uma é torre bem guardada outra é porta escancarada
Uma é um anjo de candura, outra é bisca endiabradaTenho cá duas meninas muito bem diferenciadas
Uma pede leite quente, outra quer pinga gelada
Uma lê livros sagrados, outra faz pornochanchadas
Uma dança minueto, outra só dança lambadaTenho cá duas meninas muito bem diferenciadas
Uma toma guaraná, outra vive embriagada
Uma dorme de pijamas, outra só dorme pelada
Uma é musa inspiradora outra é gata debochadaTenho cá duas meninas muito bem diferenciadas.
Observo todas duas procurando entender
E percebo finalmente pra desassossego meu:
Cada uma é metade de uma soma que sou Eu!Beni Soares
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Exemplo Edificante

                               Rejaniel cumprimentado pelo dono do restaurante

            (foto:direito.folha.uol.com.br)

                             Rejaniel e Sandra Regina

                                 (foto:nevesalvaro.blogspot.com)

Exemplo Edificante

*Lícia Peres

À medida em que o tempo passa, instala-se nas pessoas a tendência a um certo ceticismo e a relativização das coisas. O ceticismo é a descrença de que o mundo pode ser mudado e o jeito é aceitar a perda dos ideais da juventude. Há nessa posição o abandono das grandes esperanças, instala-se o conformismo, o que não é bom por representar a rendição. Na relativização das coisas, em nível pessoal, há ganhos de sabedoria e maturidade. Afinal, o namoro desfeito, encarado na adolescência como tragédia e perda irreparáveis, termina por cair no esquecimento e a vida segue em frente, quase sempre para melhor. Daí a sabedoria popular, em relação às dores, de “dar tempo ao tempo” ou o conselho poético de Rilke: “ A vida tem razão em todos os casos”.

Em meio a tantos descalabros, desvio de dinheiro, apropriação de verbas públicas que ficam no meio do caminho, mentiras e o conluio entre políticos e contraventores, foi cassado o mandato do senador Demóstenes Torres que ficará inelegível até 2027. Melhora, assim, a imagem do Senado.

Mas, o tema deste artigo é outro.

Trata-se do exemplo edificante de dois moradores de rua, em São Paulo. Ao encontrar e entregar à polícia R$ 20 mil que foram furtados de um restaurante japonês, Rejaniel de Jesus Silva Santos e sua companheira Sandra Regina Domingues- um casal de catadores de material reciclável que mora embaixo de um viaduto em Tatuapé- encontraram e entregaram à policia R$20 mil que foram furtados de um restaurante japonês. Para quem vive em precárias condições, essa quantia representa uma verdadeira fortuna. Rejaniel, ao tomar a decisão de não ficar com o dinheiro, diz ter lembrado do conselho materno “para não roubar nada dos outros”.

O restaurante propôs, em agradecimento, pagar sua passagem de volta para o Maranhão, sua terra de origem, ou para Curitiba onde mora a família de sua companheira. A outra oferta – de treinamento e emprego- foi a escolhida, o que representa a perspectiva de uma nova vida.

Ao final da entrevista, Rejaniel diz esperar “que a mãe sinta orgulho dele”, o que certamente ocorrerá, assim como nós sentimos. Seu exemplo de honradez e moralidade faz aumentar a esperança de que esta atitude tenha um efeito multiplicador sobre a sociedade brasileira, tão carente de valores.

* Socióloga

Reprodução do meu artigo publicado em Zero Hora (13/07/12):

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