Brasil, olha a tua cara

Reproduzo aqui o artigo da Sen. Marta Suplicy(FSP 1/09) analisando o resultado do IBGE (2010) e as mudanças em relação à composição da família.

Observa-se que não se pode mais falar em família, mas em famílias, face às grandes mudanças ocorridas no núcleo familiar, ao longo das últimas décadas.

Na verdade muita coisa se transformou, mas o vínculo afetivo permanece nos diversos arranjos  atuais e a realidade exige que a lei acompanhe a vida real.

Chama a atenção o  grande número de mulheres chefes de família-as únicas responsáveis pelo sustento e cuidado dos filhos- e são justamente os lares mais pobres .

As uniões homoafetivas também ocorrem em grande número, necessitando de garantias legais para que o preconceito não prospere.

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BRASIL, OLHA A TUA  CARA

Ouço, com espanto, Ana Maria Braga falar que “não importa se a pessoa é solteira, católica, evangélica” numa confusão de situações –casos não muito diferentes dos encontrados na primorosa série de reportagens de “O Globo” sobre o último Censo do IBGE (2010).

Para a população brasileira hoje, as informações e os arranjos familiares são tão diversos que, como dizia um amigo meu, “não há o que não haja”. Um homem pode estar casado com outro homem, a mulher solteira pode ser casada há anos e o casal recém-casadinho pode ter vários filhos.

As mulheres já assumem a responsabilidade por 38,7% dos lares (há dez anos, a chefia feminina era em 24,9%). E o interessante é que elas se colocam como chefes de família não só quando não existe um cônjuge, mas quando ele existe e ela ganha mais ou conduz o negócio familiar. Isso é novo e merece mais atenção.

A diversidade é tal que podemos dizer que o Censo 2010 captou uma gigantesca mudança, que é a ponta de um iceberg de novos arranjos familiares ainda não estudados.

O IBGE não mede casados em casas separadas e filhos que moram, em guarda compartilhada, em duas residências. No entanto já sabemos a existência de 60 mil casais gays formados, em sua maioria, por mulheres (53,8%).

Temos também o surpreendente número de netos morando com avós e a família chamada “mosaico” (a do meu, do seu e dos nossos filhos). Assim como amigos que moram juntos sem laços de parentesco (400 mil) e os “Dinks”, sigla em inglês referente à dupla renda e nenhum filho, que somam dois milhões de casais.

Menos filhos, mais independência e renda feminina foram fatores decisivos para essas modalidades que prenunciam um século diferente.

O caldo cultural acumulado na segunda metade do século 20, que permitiu a separação sem marginalização social, a pílula anticoncepcional, o divórcio e o maior acesso ao estudo (na TV, a novela “Gabriela”, baseada no livro de Jorge Amado, nos lembra direitinho como era a condição da mulher e sua posição na família), foi motor para o que hoje acontece. E ainda não temos a dimensão da influência da globalização e da internet.

Falou-se que a família ia acabar, tal como os conservadores disseram quando a mulher conquistou o direito ao voto. Entretanto a família se adapta. Ela se renova, mas os laços afetivos continuam preponderantes.

Concluindo, a pesquisa indica que a família tradicional já não é mais maioria no Brasil. Ela corresponde a 49,9%. E agora Congresso? Não dá mais para ignorar o mundo dinâmico no qual vivemos nem permitir que setores conservadores inviabilizem a votação de leis que incorporem o que a sociedade já vive plenamente.

MARTA SUPLICY escreve aos sábados nesta coluna.

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Sobre Lícia Peres

Sou socióloga, feminista, fundadora do PDT, mãe do Lorenzo, cinéfila, amante da literatura e da música. Nascida em Salvador-BA, adoro os verões baianos, onde encontro minha família de origem. Escrevo sobre temas da atualidade e, seguidamente, faço palestras.
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