Avenida Brasil

As novelas têm sido , há muito tempo , entretenimento do povo  brasileiro. Pouquissimas vezes me deixei prender por alguma.

A Avenida Brasil  vem constituindo em grande sucesso , com índices extraordinários de audiência.

Luciano Alabarse, diretor de Teatro e coordenador de Porto Alegre em Cena, escreveu um texto que merece ser lido.

AVENIDA BRASIL

(ofuxico.terra.com.br)

( rd1audiencia.com)

 

(fotos imagem.net)

 

QUEBRANDO PARADIGMAS

 

Há muitos anos a televisão brasileira não apresentava uma novela como “Avenida Brasil”.  O gênero apresentava inegáveis mostras de exaustão dramatúrgica, pela redundância de enredos previsíveis e fórmulas desgastadas pelo excesso de uso.  Mas só espectadores muito preconceituosos não reconhecerão as novidades bem-vindas da trama escrita por João Emanuel Carneiro. “Avenida Brasil” mantém o espectador em tensão permanente diante do televisor. Sua inegável eficácia revigora os padrões e hábitos dos que gostam de novelas.  Mania nacional assimilada, a novela brasileira  precisava de uma história inovadora como essa, e os recordes de audiência em todo o Brasil ratificam o exito da empreitada. Muito se tem escrito sobre o protagonismo de uma emergente classe “c”, cujos personagens do fictício bairro do Divino substituem os ricos endinheirados da zona sul carioca, apontando esse fato como o grande diferencial do enredo. No meu ponto de vista, e reconhecendo aí uma estratégia bem sucedida, não é exatamente a emergência social de personagens suburbanos que transformaram esta novela em assunto obrigatório no imaginário brasileiro. Os motivos que nos deixam grudados na cadeira são outros.

A principal novidade da novela é que sua história não se baseia em uma história de amor tradicional, onde o sofrimento e a separação do casal central é recompensada nos últimos capítulos,  com os dois felizes para sempre. Não. “Avenida Brasil” tem um enredo cheio de som e fúria, como uma boa peça shakespeareana, onde o ódio move as ações inusitadas dos principais personagens.  A vingança é o elemento central da novela, o sentimento preponderante, o mote do enredo. O ajuste de contas entre Nina/Rita ( Débora Falabela) e Carminha (Adriana Esteves), a órfã abandonada num lixão pela madrasta, galvaniza todas as atenções de “Avenida Brasil”. Os amores que entrelaçam seus personagens não tem, nem de longe, a força arrebatadora do duelo travado por ambas. Há uma total inversão dos paradigmas televisivos nesse embate, e esse é o seu real fato novo. Não há pieguismo nos diálogos que incendeiam a tela; como num bom romance policial, as duas são dissimuladas e inteligentes, e apostam todas as fichas em um jogo arriscado e perigoso. Nunca se viu na história da televisão brasileira uma “mocinha” como Nina.  Rancorosa e vingativa, ela é capaz de gestos tão tresloucados como aqueles cometidos pela responsável por seu destino. Ela mente, rouba, engana, dispensa o namorado, e, nessa fase do enredo, faz gato e sapato de sua grande inimiga. Nina relega seu sentimento amoroso a um segundo plano,  incapaz de abandonar a pulsão vingativa que lhe dá razão para existir. Amor e serenidade somente depois  de crucificar, bem crucificada, a megera Carminha, construída por uma Adriana Esteves surpreendente. Esta, por sua vez, nunca foi santa, mas tem pelo filho problemático um amor incondicional e sincero. As regras estão invertidas. As cartas estão embaralhadas. Muitas vezes, há mais humanidade na vilã do que na heroína.  O público não sabe para quem torcer efetivamente. No fundo, parte significativa da audiência torce por Carminha. Muito se deve ao excepcional trabalho da atriz, no melhor papel de sua carreira. O mesmo se pode dizer de Débora Falabella, perfeita ao encarnar as contradições oscilantes da mais antipática das heroínas já vista em nossa televisão. Nina/Rita diz que quer  vingar os inegáveis maus tratados sofridos desde a infância, mas sua justiça é embasada em gestos de crueldade dignos de uma psicopata. Nesse jogo, não dá para disfarçar que  torço por Caminha. Claro que ela exagera. Carminha é “do mal”. Quando envenenou um cachorro procurando notícias sobre sua arqui rival, ou mandou um capanga sepultar sua enteada em uma cova, viva, sua maldade atinge um patamar insuportável. Carminha encarna a maldade absoluta e indefensável e, mesmo assim, desperta simpatia e curiosidade. Fundamentada na excelência das duas interpretações realistas, que fogem de caricaturas infantilizadas, há cenas de uma densidade raramente alcançada na televisão brasileira. Resta ver o que nos espera na metade final da novela.

Outro acerto absoluto de “Avenida Brasil” foi o de colocar o futebol como instrumento de ascensão social. Na novela, os jovens suburbanos do Divino pertencem a um time da segunda divisão, mas procuram o sucesso, querem subir e ascender, não se resignam com sua situação profissional, seu futuro estigmatizado. Que o Brasil, reconhecido como o país do futebol por excelência, tenha demorado tanto a lhe dar  a devida importância faz com que o autor tenha conseguido, com o perdão do trocadilho, um golaço. Nenhum dos jogadores é propriamente um galã clássico. Ainda bem. Jorginho, o “herói” da novela, é problemático e indefeso. Os outros sustentam suas histórias paralelas  sem nenhum exemplo moralizante de comportamento. Unem-se para punir a periguete do bairro. Implicam uns com os outros, sentam na mesma mesa de bar e todos convencem em suas interpretações. O mesmo se aplica aos veteranos Marcos Caruso e Eliane Giardini, cuja libido é muito maior do que a de seus novos parceiros. Os dois, mais Otávio Augusto, o “Seu” Diógenes, estão irretocáveis.  Esplêndidos. O grande personagem positivo da novela, e isso soa como outra novidade, é um homem, e não uma mulher. Igualmente bem interpretado por Murilo Benício, o ex-jogador Tufão já tem assegurado  seu lugar como personagem inesquecível da teledramaturgia nacional. Boa praça, decente, marrento na medida, vive sua vidinha com humor e obstinação.

O enredo só não é perfeito porque há um núcleo pretensamente pensado para desanuviar o clima asfixiante da trama central. Cadinho e suas três mulheres aparecem como o recurso menos expressivo de uma novela que não suaviza suas mazelas principais. Apesar de o segmento contar com excelentes atores , com destaque para Débora Bloch, o problema aí é de dramaturgia mesmo. Numa novela onde as empregadas reproduzem em suas casas o mau comportamento de seus patrões suburbanos, essa história de poligamia engraçadinha parece forçada e irreal.

Outra razão do sucesso é a escalação do elenco. Não há ninguém, dos personagens centrais aos mais secundários, que não esteja realizando um bom trabalho de composição, fato raríssimo nas produções televisivas. Com maiores ou menores recursos, como que contagiados pela excelência da trama e pelo roteiro estimulante, os atores mostram facetas até então desconhecidas do grande público. Marcelo Novaes é o melhor exemplo.  Max, um personagem  complexo e  cheio de nuances, o malandro que sempre se dá mal, é muito bem construído pelo ator.  Ver bons atores reunidos numa trama intrigante, aliás, em capítulos  construídos em um ritmo alucinante, é outro diferencial, uma vez que a trama das novelas brasileiras se estende por longos meses até seu desfecho final. As reviravoltas de “Avenida Brasil” prendem a atenção do espectador, em uma produção caprichada, onde os enquadramentos da fotografia lembram  linguagem cinematográfica e a luz é  elemento central do requintado acabamento da produção.

Por tudo isso, parece incrível que a melhor novela dos últimos anos tenha uma trilha sonora pífia e discutível, a começar pela abertura, pouco inspirada, e que minimamente não faz jus à novela. As canções popularescas poderiam ser contrabalançadas com músicas e intérpretes de melhor qualidade. É muito “oi oi oi”, “ai ai ai” e “eu quero tchun” de uma vez só. Mesmo a canção de Marisa Monte não tem a qualidade de outras composições da grande cantora. Falando nela:  em seu último disco, Marisa canta uma canção cujos versos confessam explicitamente “ hoje eu não saio não, eu quero ver televisão”.   Melhor que a maioria das peças e dos filmes oferecidos atualmente ao público brasileiro, “Avenida Brasil” encontrou  sua perfeita tradução no mencionado refrão. A novela de João Emanuel Carneiro vai deixar saudades.

LUCIANO ALABARSE

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Sobre Lícia Peres

Sou socióloga, feminista, fundadora do PDT, mãe do Lorenzo, cinéfila, amante da literatura e da música. Nascida em Salvador-BA, adoro os verões baianos, onde encontro minha família de origem. Escrevo sobre temas da atualidade e, seguidamente, faço palestras.
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