As vítimas falam por si

Penso que a criação da Comissão da Verdade  representa um significativo avanço  para iluminar a grande sombra que não se dissipará enquanto a verdade continuar escondida e, portanto, ignorada pela  sociedade.

Não se trata da revogação da Lei da Anistia, de revanchismo ou sentimento de vingança , mas de um direito para que a História do Brasil relate a verdade dos fatos e os familiares dos mortos e desaparecidos  e aquelas pessoas covardemente torturadas durante a ditadura possam assistir a condenação moral dos seus algozes.

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O excelente e muito oportuno artigo da escritora Rosiska Darcy de Oliveira, publicado no jornal o Globo (07/06), sob o título  A vítimas falam por si   está reproduzido abaixo:

                                                 Rosiska

(bmfbovespa.com.br)

Desaparecidos do Araguaia

(linguadefogo2.wordpress.com)

As vítimas falam por si

 

Elie Wiesel, sobrevivente de Auschwitz, Premio Nobel da Paz, perguntado se falava em nome dos mortos respondeu que não. “Ninguém fala em nome dos mortos, os mortos falam por si”. E acrescentou: “Resta saber se os vivos são capazes de ouvi-los”. Ninguém fala em nome dos mortos, desaparecidos e torturados, vítimas da ditadura militar brasileira. Eles falarão por si mesmos agora que o Estado brasileiro finalmente decidiu-se a ouvi-los.

Há quem critique a criação da Comissão da Verdade que estaria reabrindo inutilmente uma ferida. Enganam-se. A ferida existe e não há remédio para cicatrizá-la senão a memória e a verdade. Ou alguém acreditou que mortos sem sepultura se calariam?

Cada geração, atravessada pela tragédia, reencena sua Antígona, a recusa visceral de deixar insepultos os entes queridos. Uma geração foi ferida pela tragédia e precisa enterrar seus mortos, em sentido estrito e metafórico. Ao contrário do que se teme, este é o caminho da verdadeira reconciliação, ainda que seja, e é, um caminho doloroso. Se a comissão não tem o poder de punir, no sentido de processar criminalmente e condenar, as verdades que virão à tona, punirão, sim, com a condenação moral.

Os atos bárbaros que foram perpetrados pela ditadura militar e para os quais seus agentes, sem assumi-los, invocam justificativas – estranho paradoxo: atos que não teriam existido são justificados – de tão vergonhosos se praticavam em porões e casas vazias. Apagavam-se os traços, silenciavam-se as vozes, abafavam-se os ecos. Inconfessáveis, eram atos fronteiriços entre o aniquilamento do opositor- mesmo quando armado apenas com argumentos – e o sadismo, entre a guerra suja e a deriva mental.

Deles há, sim, que se envergonhar. As penas que a Comissão pode infligir não estão na Lei e sim na Moral. Seu caminho é o inverso do seguido pela repressão: as testemunhas falarão e serão ouvidas à luz do dia, os traços reconstituídos, os resultados tornados públicos.

Os desaparecidos da vida não devem desaparecer da História e os trabalhos da Comissão talvez venham a ser a maneira mais honesta de lhes dar, enfim, uma sepultura digna. Essa é a moral da história.

Por definição só os sobreviventes têm o dom de perdoar. Ao fazê-lo afirmam sua irredutível diferença frente aos que negaram sua humanidade. O dom de perdoar não implica o impossível dever de esquecer. Anistia não é amnésia, sintetizou Adam Michnik, ilustre dissidente polonês. É o que repete incansavelmente o reverendo Desmond Tutu, também Premio Nobel da Paz, com a autoridade de quem comandou a Comissão de Verdade e Reconciliação, criada por Nelson Mandela, na África do Sul.

A liberação da memória não é um preito ao passado, é uma ponte para o futuro, o cuidado com a transmissão da herança de uma geração a outra. A rememoração atualiza o esquecido, o ocultado ou ignorado, preenchendo um vazio de compreensão sem a qual a juventude é expropriada de uma dimensão de sua vida que, embora não vivida em primeira pessoa, sofre os reflexos e conseqüências do que foram os gestos de seus antecessores. Como pode um jovem entender o Brasil de hoje, ouvindo dizer que a presidente da República foi torturada e passou anos na prisão, não sabendo como, quando nem por que, sem lucidez alguma sobre o passado e sua carga traumática?

A grande nação democrática que o Brasil está se tornando não pode comemorar apenas seus sucessos. Tem a obrigação de visitar suas zonas de sombra para que esses fatos jamais se repitam. Se formos capazes de aprender as lições do passado – tortura, nunca mais, em prisão alguma – essa será a derrota última dos torturadores e a missão cumprida da Comissão da Verdade. Frente a isso empalidece o sentimento de revanche. A vingança é uma inspiração arcaica que não rima com o momento promissor que vive o país. O sucesso do Brasil democrático é o mais duro castigo que a historia impõe a quem apostou na barbárie dos porões.

O Estado brasileiro tem que fazer o seu trabalho de memória, encarando e admitindo os crimes que cometeu, fazer seu luto, convivendo com a tristeza pelo irreparável e tentando reparar o que ainda é possível: dizendo às famílias e amigos o paradeiro dos seus.

Avessa aos ódios que, no passado, levaram alguns a ver no opositor um inimigo, no inimigo uma coisa desprezível, no limite o “sub-homem” de que fala Primo Levi, a nova sociedade brasileira poderá então, encontrar a paz da reconciliação. Inescapáveis, verdade, luto e reconciliação são momentos fecundos na história de cada um e de uma nação.

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Sobre Lícia Peres

Sou socióloga, feminista, fundadora do PDT, mãe do Lorenzo, cinéfila, amante da literatura e da música. Nascida em Salvador-BA, adoro os verões baianos, onde encontro minha família de origem. Escrevo sobre temas da atualidade e, seguidamente, faço palestras.
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