Desfaçatez

Este artigo foi publicado no jorna l Zero Hora em 20/04.

         

Iranianas

Iranianas (foto:professormarcianodantas.blogspot.com

 

Mulher no IRã

Mulher no Irã (foto:ensinosdoeterno.blogspot.com)


    Foi notícia nacional o comportamento do diplomata iraniano Hekmatollah Ghorbani acusado de molestar meninas de 9 a 15 anos   durante um banho de piscina. Uma das   garotas, de 14 anos, percebeu que o iraniano havia tocado as partes íntimas de outras jovens e, após adverti-lo, avisou  ao salva-vidas do clube, que ordenou o fechamento da piscina. O pai de uma das meninas, José Roberto Fernandes Rodrigues, voltou à piscina e, indignado, tentou agredir Ghorbani.

  Na delegacia, segundo O Globo, o delegado-adjunto Johnson Monteiro, que acompanhou as denúncias, confirmou os relatos. Apesar do flagrante, Ghorbi foi liberado por ter imunidade diplomática. A ocorrência está registrada e será encaminhada ao Itamaraty. “Caso fosse  cidadão comum ele estaria respondendo por estupro de vulnerável, previsto em lei, com pena de 8 a 15 anos de prisão . Seria considerado flagrante e estaria preso”,afirmou. O diplomata que tem mais de 50 anos é o terceiro na hierarquia da embaixada iraniana  e já está no posto há dois anos.

     É inaceitável que, sob o manto da imunidade, crimes sejam encarados de forma complacente.

     A situação das mulheres no Irã é algo que fere a dignidade humana.       Internacionalmente sempre nos envolvemos em campanhas para evitar atrocidades  que são permitidas pela lei iraniana. É o caso de Sakineh Ashtiani condenada a morrer por apedrejamento.

   Pouco valem as mulheres: o rapaz pode ser condenado à morte a partir dos dezoito anos, as mulheres aos nove.

O representante do corpo diplomático iraniano, com sua atitude, revelou o menosprezo ao sexo feminino.

 Não posso deixar de relacionar esse caso com outro, também recente, onde os juízes do Superior Tribunal de Justiça absolveram um homem  que havia mantido relações sexuais com três meninas de 12 anos, sob a alegação de que elas já tinham vida sexual, não eram ingênuas e se prostituíam. Essa decisão, mais do que absurda, desumana, gerou protestos em todo o país. Em qualquer hipótese o “consentimento” é questionável. Como pode uma menina de 12 anos ter maturidade e discernimento para decidir escolher, como caminho de vida, a prostituição?

  Está formalizada, assim, a  desproteção quando vimos,  pela Justiça, a validação desse comportamento abusivo.

 

  No Brasil, um dos avanços significativos  foi o Estatuto da Criança e do Adolescente-ECA, cujo conceito sobre a criança passou de “situação irregular” para o  de proteção integral . Qualquer adulto decente jamais tiraria proveito de uma condição de vulnerabilidade para se deitar com elas. Essas meninas precisam dos cuidados que lhes faltaram e que as levaram  à violência das ruas.

Pergunto: tal decisão judicial que mostrou permissividade sobre relações sexuais com menores de 14 anos não contribui para um ambiente de tolerância ao abuso sexual de crianças e adolescentes?

   O diplomata iraniano que mergulhava com desenvoltura para molestar, sentia-se seguro, não temia  consequência. No caso, as meninas tinham família que zelava por elas e  tomaram a providência de apresentar a denúncia.

Cair no vazio seria muita desfaçatez.                                       


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Sobre Lícia Peres

Sou socióloga, feminista, fundadora do PDT, mãe do Lorenzo, cinéfila, amante da literatura e da música. Nascida em Salvador-BA, adoro os verões baianos, onde encontro minha família de origem. Escrevo sobre temas da atualidade e, seguidamente, faço palestras.
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