Disciplina

Assunto sério: hoje eu transcrevo a entrevista de uma educadora, WalkíriaGattermayr Ribeiro, do Colégio Vértice, um dos melhores de São Paulo, sobre um tema que afeta a vida de toda a sociedade: a disciplina, ou melhor, a falta de.

Nos dias atuais, a ausência de limites de  grande número de crianças e adolescentes vem resultando, muitas vezes, em depressão,  drogadição  e deliquência.

Aprendizagem (foto: divulgação)

Por que a disciplina é importante?

A disciplina é indispensável para uma criança, essencial ao seu crescimento e desenvolvimento sadios e constitui parte integrante do aprendizado. Regras, regulamentos, leis e princípios governam quase todas as atividades intelectuais, seja nas ciências, artes ou humanidades. Ensinar a criança a segui-las ajuda-a fazendo-a adaptar-se ao mundo e ter um comportamento socialmente aceitável, o que leva a aprender, a ter noção dos direitos dos outros e de respeito. Além disso disciplinar volta a atenção da criança para além de si, de modo que ela não funcione unicamente em termos de seus próprios impulsos, sem considerar os sentimentos dos outros.

Há muitas outras funções na criança em crescimento: ela estabelece que o mundo é um lugar organizado e que limitações, consistentemente organizadas, tornam as coisas previsíveis; dá uma estrutura além de contribuir para uma estabilidade compreensível.

Em essência, a disciplina é a aplicação constante das regras e regulamentos que você estabeleceu. Se você for volúvel e inconstante em estabelecer padrões para um comportamento aceitável, se não exigir sempre, a criança sentirá que suas regras são fracas.

Como disciplinar?

Se você não for claro em sua expectativa quanto ao comportamento de seus filhos, eles ficam ansiosos ou angustiados. Muitas vezes, essa ansiedade manifesta-se por uma grande atividade e, às vezes, por uma hiperatividade.

Se você é imprevisível: eles se sentem vulneráveis e desprotegidos.

Quando você é inconstante, o comportamento deles será, quase sempre, um mau comportamento, pois a estarão testando para ver até onde você irá. Você pode  achar que eles a põem louca, mas o intuito deles não é incomodar. Seus filhos estão simplesmente procurando as regras para poderem experimentá-las o suficiente e certificar-se de que serão protegidos por elas.

Uma criança só poderá descansar quando sentir que você é suficientemente forte e interessada por ela para lhe demonstrar, através de sua coerência e constância, o seu afeto.

 

Como colocar regras?

Regras e regulamentos razoáveis promovem a disciplina. Se as regras disciplinares que você estabeleceu são tão pouco realistas que não as pode aplicar constantemente sem se sentir cruel, você certamente será inconstante. Não é raro, e é muitas vezes compreensível, que, quando você ficar apoquentada com a criança, imponha regras extremamente rígidas, como “Se você não terminar o almoço, vai passar a tarde toda no seu quarto”.

Você verá que é extremamente difícil aplicar isto sem sentir que está pondo a criança numa cela solitária, mas voltar atrás fará de você um disciplinador inconstante. Por esse motivo, os regulamentos que você estabelece devem ser razoáveis, protetores e passíveis de serem impostos, do contrário, a criança não poderá ter sentimento de lealdade se não houver algumas restrições. Infelizmente, alguns adultos acreditam que a ausência de regulamentos e regras facilita um sentimento de liberdade, insistem em criar uma atmosfera de “permissividade”, palavra com conotações positivas e agradáveis, mas que, muitas vezes, é empregada para descrever uma ausência total de regras.

Se você estabelecer uma situação tolerante e se recusar a estabelecer disciplina, a criança, invariavelmente, interpretará sua atuação como indiferença.

Quando ela acha que você é indiferente, supõe que não há interesse por ela, e isso é desastroso. Pior ainda, uma criança que é educada de maneira tolerante, muitas vezes não tem controles íntimos adequados e destrói as coisas a torto e a direito. Uma criança assim torna-se um monstro, pois embora possa não ser basicamente destruidora, ninguém, especialmente os seus educadores, faz qualquer tentativa para impor limites em seu comportamento que a ajudem a dirigir sua energia para atividades úteis ou construtivas.

Todos os psicólogos e psiquiatras sabem que muitos processos inerentemente construtivos são criados canalizando-se impulsos potencialmente destruidores. Por exemplo, todas as descobertas destroem idéias preexistentes. Os cientistas, de fato, estão sempre tentando derrubar idéias, mas também substituí-las por coisa melhor.

Só pelo controle do comportamento é que se pode canalizar impulsos destruidores para uma atividade útil. Muitas crianças, “criadas” num ambiente de tolerância, tornam-se terrivelmente inibidas. Ficam apavoradas com seus impulsos destruidores. Como não há adultos junto delas para estabelecer limites que controlem esse comportamento, elas se abstêm de toda atividade, tornando-se tremendamente constrangidas. Perguntando-se a elas se estão se divertindo, responderão que não sabem. Há muitos adultos com problemas de comportamento que provêm de um ambiente assim: têm grande dificuldade em tomar decisões; fazer projetos para o futuro, são às vezes tristes; outras vezes, quietas com tendências agressivas; possuem sintomas de compulsividade e, invariavelmente, é impossível para elas sentirem qualquer prazer. Os limites que os educadores não estabeleceram, eles mesmos o fizeram, e, na maioria das vezes, esses limites são mais restritos do que aqueles estabelecidos por educadores.

Castigo é disciplina?

O castigo, às vezes, é um mal necessário. Se seus sentimentos e reações não são suficientes para provocar um comportamento aceitável ou suprimir um inaceitável, poderá tornar-se necessário administrar um castigo.

Não confunda, porém, isso com disciplina. A disciplina representa regras regulamentos e controles, que limitam o comportamento aceitável.

tempo para pensar (foto:rostinhosbonitos.com)

Como castigar corretamente?

O castigo é o preço que a criança paga por desobedecer às regras.

O castigo e a disciplina não são permutáveis. Se você ameaçar com um castigo, esteja preparada para cumpri-lo. Há pais que estão sempre ameaçando a criança com  castigo, só para intimidá-las. Isto não é aconselhável. Você estará se enfraquecendo e minando as regras e regulamentos que o castigo deveria sustentar. Não se deve fazer nenhuma ameaça que não esteja inteiramente disposto a cumprir.

Às vezes, é melhor ignorar o mau procedimento da criança do que a ameaçar com um castigo que não se aplica,  pois se você não conseguir encontrar um castigo justo, não ameace com nenhum.

Naturalmente, se você pretende ser um bom educador ou educadora, é melhor não deixar que isso ocorra muitas vezes. A criança precisa experimentar satisfações em seus relacionamentos com você, além de sentir as restrições que suas expectativas lhe impõem. Se faltar o senso de restrição ou o de satisfação, surgirá um problema.

Um educador dominado, que dedica pouca ou nenhuma satisfação, expulsa a criança de casa. Por outro lado, estudos já mostraram que as crianças criadas numa família sem uma pessoa de grande autoridade têm tendência para a delinqüência, quando adolescentes.

Um progenitor ausente, ou que seja fraco em estabelecer padrões, ou inconstante, pode inadvertidamente forçar o filho a buscar seus padrões  de comportamento em outra parte – muitas vezes, nos amigos.

Esses também podem estar com problemas semelhantes, ficando todos distantes dos valores e padrões do mundo adulto.  Esse afastamento pode levar os jovens a serem autodestruidores, pois têm pouca sabedoria conseguida em experiências passadas. De certo modo, estão realizando um ritual de comportamento que dá a todos a sensação de que pertencem a alguma coisa e que cada qual se interessa pelo outro – sensação que nenhum deles tinha em sua família.

Além disso, a criança gostaria de sentir que você sabe  que é um indivíduo distinto e que reconhece diferenças. Ela quer que você a ajude a explorar seus próprios  recursos, reconhecer e orgulhar-se de suas realizações. Seus apoios dar-lhe-ão o impulso necessário para continuar a empreender cada vez mais atividades independentes.

Como modificar comportamentos?

Os filhos podem ser muito exigentes na ocasião em que normalmente se aprendem os padrões de comportamento, e em que eles são imbuídos pela figura de autoridade dentro da família, que seja tanto respeitada como amada.

Um bom progenitor, que respeita as exigências da criança, retribui os sentimentos dela – isto é, os de amor e de respeito. Só o amor e respeito mútuos (as duas faces da disciplina) satisfazem plenamente as necessidades do futuro adulto.

Às vezes, a criança não é “abertamente” desobediente, mas não parece mostrar interesse em desempenhar as suas tarefas, que são as esperadas. Nada importa muito a essa criança que age como se não tivesse senso de responsabilidade.

Isso acontece quando ela teve uma dose mínima de elogios por suas realizações e pouca oportunidade de fazer-se notar no mundo. Não há um motivo lógico para esperar que a criança desempenhe as tarefas que lhe cabem, caso não haja o reconhecimento de sua capacidade para comportar-se de maneira que lhe agrade. A criança deve ter um relacionamento significativo com o adulto, senão não há motivo inerente para fazer coisas que agradem a você.  Se o comportamento e as reações não significam nada para os outros, especialmente para as pessoas que a disciplinam, ela terá pouca ou nenhuma motivação para agradar aos outros, adquire uma atitude um tanto letárgica e desinteressada; tem uma atitude de “não ligo a mínima” para o que as coisas significam para os outros.

Às vezes, uma criança é educada num lar em que os pais e/ou os empregados fazem tudo para agradar-lhe e reduzem a um mínimo o esforço de suas tarefas de todo dia. Essa criança está aprendendo a esperar que os outros façam tudo por ela. Esse hábito priva-a do prazer de descobrir as recompensas que existem quando ela mesma resolve os seus problemas. Quando a criança se torna adulta, tende a ser exigente. Será compreensível que ela espere que as coisas se resolvam com um esforço mínimo de sua parte.

Um comportamento destrutivo, invariavelmente, indica que há alguma coisa perturbando a criança profundamente. O provável é que ela esteja desesperada. Basicamente está assustada e apavorada com a idéia de perder o seu amor. A atenção, ainda que para contrariá-la, é pelo menos uma garantia de que você se interessa por ela. Este problema ocorre muitas vezes na família em que as pessoas com quem convive, bem intencionadas, nunca têm tempo suficiente para dedicar uma atenção ininterrupta à criança. Aliás, uma criança nessa situação, muitas vezes, tiraniza outras crianças. Mostra muita valentia.

Essa maneira aberta de expressar-se esconde uma desesperada necessidade interior do amor de alguém. Os outros, geralmente, consideram um valentão ou orgulhoso como detestável e querem diminui-lo. Esta é uma reação cruel. Você deve lembrar-se de que a criança, invariavelmente, sente-se fraca, para começar. Diminuí-la, simplesmente, vai minar sua posição, que já é desesperadora.

Assim, é muito importante que cada família ou cada adulto disciplinador, aquele que atuará com a criança, tenha em mente que sua coerência de atitudes, seu bom senso e, principalmente, sua perspicácia para avaliar se o comportamento indesejável apresentado pela criança foi decorrente de uma inexperiência ou feito de maneira proposital; enfim, esse conjunto de atitudes é que deve reger a justa medida da atuação.

Walkíria Gattermayr Ribeiro

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Sobre Lícia Peres

Sou socióloga, feminista, fundadora do PDT, mãe do Lorenzo, cinéfila, amante da literatura e da música. Nascida em Salvador-BA, adoro os verões baianos, onde encontro minha família de origem. Escrevo sobre temas da atualidade e, seguidamente, faço palestras.
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