Tribunal interno de cada um

A cada dia, tomamos conhecimento de denúncias envolvendo pessoas consideradas impecáveis. Usavam a máscara de sobriedade, da honestidade, criticando impiedosamente a tudo e a todos. Publicamente, à perfeição,representavam o papel  de cidadãos exemplares até que vem à tona  suas falcatruas. Caem suas máscaras.

Fico pensando que uma das coisas mais importantes na vida de cada um de nós é o nosso tribunal interno, aquele que nos orienta sempre: um conjunto de valores que é a nossa bússola.  Independente do que pensem os demais, são parte constitutiva de nós mesmos. Ajudar nossos filhos a internalizarem o sentimento de justiça, a noção de dever,o respeito ao próximo, a honradez, a bondade  e a compaixão é a melhor herança   que podemos lhes oferecer.

 Revi há pouco tempo um filme que, para mim, constitui uma verdadeira obra-prima na história do cinema e que recomendo  com  entusiasmo.

Trata-se de 12 Homens e uma Sentença  que mereceu uma bela crônica da escritora Claudia Laitano , publicada no ano passado em Zero Hora, aqui reproduzida.

***    

Doze homens e uma sentença.(foto: MGM)

                                                                        

                                       O jurado número 8

Publicado em 16/04/2011 por Elton Mello

CLÁUDIA LAITANO

Quando o cineasta Sidney Lumet morreu, no sábado passado, aos 86 anos, o veterano crítico americano Roger Ebert dedicou-lhe um tocante texto de despedida, qualificando o diretor nova-iorquino como um dos grandes humanistas da história do cinema. Produtivo e lúcido até os últimos anos, o autor de clássicos como Um Dia de Cão, Serpico e Rede de Intrigas conseguiu um feito não muito comum na carreira de artistas longevos: entrou e saiu de cena com duas obras-primas.

Seu último trabalho, o impactante thriller Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (2007), é daqueles filmes que saem com você do cinema e o deixam desassossegado por alguns dias, antes de repousar definitivamente no arquivo vivo da memória. Mas a obra-prima que eu queria lembrar aqui é aquela que marcou a estreia de Sidney Lumet no cinema: 12 Homens e uma Sentença (1957), um dos filmes que talvez expliquem por que aquele jovem diretor seria lembrado no futuro como um dos grandes humanistas da sua geração.

Apesar de aparentemente se encaixar na categoria “drama de tribunal”, 12 Homens e uma Sentença não é um título convencional do gênero. O suposto criminoso, um garoto de 18 anos de um bairro pobre de Nova York, mal aparece no filme, e ao final da história nem sequer ficamos sabendo se ele realmente matou o próprio pai ou não. O que está em jogo ali não é a construção dedutiva da verdade aos moldes de uma trama policial ou mais uma reflexão sobre os limites da Justiça em uma democracia. Tudo isso está no filme, operando na superfície da história, mas o que torna 12 Homens e uma Sentença uma obra-prima é menos a trama em que os personagens estão envolvidos (O garoto cometeu ou não o crime? Há evidências suficientes para condená-lo à morte?), mas a forma como os jurados interagem. O filme nos apresenta uma espécie de sinfonia humana – com cada um dos 12 jurados encarnando tipos universais e atemporais, facilmente identificáveis em qualquer grupo de pessoas.

Há o sujeito irascível, que bate na mesa e se impõe mais pela intensidade da voz do que pela força dos argumentos. Há a turma dos retraídos, dos quais com dificuldade se extrai uma posição firme. Há os que oscilam ao sabor das opiniões alheias. Há os que querem se livrar rapidamente de qualquer tarefa para voltar logo a dedicar-se à própria vida. Há o velho sábio, mas já sem forças para se impor. Há o homem que não consegue perceber os próprios preconceitos e pensa estar exercendo o direito de opinião quando, na verdade, está questionando o próprio sentido da democracia – o princípio da igualdade.

E há, claro, o personagem de Henry Fonda. Herói do tipo “homem comum honrado”, que caía como uma luva no ator, o jurado número 8 representa a grandeza de todas as pessoas que lutam pela justiça e se empenham por causas alheias como se fossem suas, mesmo quando elas parecem perdidas.

Henry Fonda (foto: MGM)

Todas as vezes em que você navegar contra a maré para fazer aquilo que, intimamente, acredita que é certo, pode se orgulhar de estar sendo como o jurado número 8 – gente que  faz diferença.

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Sobre Lícia Peres

Sou socióloga, feminista, fundadora do PDT, mãe do Lorenzo, cinéfila, amante da literatura e da música. Nascida em Salvador-BA, adoro os verões baianos, onde encontro minha família de origem. Escrevo sobre temas da atualidade e, seguidamente, faço palestras.
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